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Guia de AEO

Transformar em rotina

Maurício de Queiroz, CEOCapítulo 7 de 7 · 15 min de leitura

Neste capítulo
  1. Por que o AEO trava na reunião
  2. Um programa da empresa, não a campanha de um time
  3. Quem coordena e quem executa
  4. Como convencer a liderança
  5. Medir em três níveis
  6. A presença chega primeiro
  7. Perguntar como o cliente chegou
  8. Metas do canal, não de campanha
  9. Registrar o que foi feito
  10. Cada time ganha com a própria meta
  11. O ritmo do programa

Os capítulos anteriores levaram a Lumora do primeiro diagnóstico a um plano. Executar esse plano uma vez é um projeto. Só que as respostas das IAs continuam mudando depois que o projeto acaba, e a marca precisa acompanhar.

Este capítulo trata da parte que menos aparece nos gráficos e que mais decide o resultado: quem faz o quê, como medir sem se enganar, como manter a liderança por perto e em que ritmo olhar os números.

Por que o AEO trava na reunião

Quase todo programa de AEO começa bem. O diagnóstico impressiona, a reunião termina com todo mundo de acordo e, um mês depois, nada mudou. Raramente é falta de vontade: o trabalho não cabe nas mãos de quem fez o diagnóstico.

Para responder sobre luminárias, a IA lê o Reclame Aqui, o Mercado Livre, o site da Lumora, o YouTube, um guia de iluminação e o Reddit. Cada fonte tem um dono diferente dentro da empresa, ou nenhum. O marketing reescreve o site, mas não responde às reclamações, não refaz o anúncio do marketplace nem liga para quem escreveu o comparativo com o preço antigo.

O AEO é transversal: atravessa times com metas próprias, agendas cheias e nenhuma obrigação de atender a um pedido que chega de fora. Por isso trava na reunião, e não na execução. Quando cada time sabe o que fazer e por que isso o ajuda, executar costuma ser a parte simples.

Um programa da empresa, não a campanha de um time

Uma campanha tem começo, fim e um dono. O AEO não cabe nesse molde. Não tem fim, porque as IAs mudam e as fontes envelhecem: o preço da Lumora Pro mudou em agosto e o Gemini ainda repete o antigo. Não tem um dono só, porque as fontes estão espalhadas pela empresa. E o resultado se acumula: cada resposta no Reclame Aqui, cada página nova, cada matéria soma um pouco, e nenhuma ação isolada explica o todo.

Tratar o AEO como programa significa três coisas práticas: um coordenador fixo, metas que todos conhecem e um calendário de revisões que não depende de alguém lembrar.

Quem coordena e quem executa

A coordenação costuma ficar com marketing ou SEO, que leem os números e entendem como as IAs montam as respostas. Coordenar não é fazer tudo. É acompanhar os números, transformar cada problema num pedido para quem pode resolvê-lo, conferir se o resultado apareceu e contar à empresa o que mudou.

Quem executa são os donos de cada fonte: o atendimento cuida do Reclame Aqui e do WhatsApp; quem gere os marketplaces cuida dos anúncios; comunicação cuida da imprensa e dos parceiros; tecnologia, do acesso dos robôs; produto, das especificações.

O que mais pesa é o pedido. "Precisamos melhorar a nossa presença nas IAs" não é pedido: ninguém sabe o que fazer com isso. Um bom pedido segue o formato do capítulo 4 (o que a IA diz, o que queremos, onde o trabalho do time aparece, o que precisamos dele) e acrescenta o prazo e a forma de conferir.

Como convencer a liderança

Sem apoio de cima, o coordenador vira alguém pedindo favores. Com apoio, os pedidos entram nas prioridades dos times. A conversa com a liderança precisa de duas peças.

O mapa do que a IA lê

Uma página com duas colunas: as fontes que as IAs mais citam sobre a sua categoria e quem cuida de cada uma dentro da empresa. O mapa mostra num olhar que a resposta da IA é feita de coisas que já têm dono, e que nenhum time sozinho dá conta delas.

O da Lumora: Reclame Aqui, atendimento; Mercado Livre, e-commerce; o site, marketing e tecnologia; YouTube, redes sociais; o guia de iluminação e o comparativo antigo, comunicação; Reddit, ninguém. A linha com "ninguém" é a que mais gera conversa.

A conversa em quatro partes

  • Onde estamos. O retrato do diagnóstico, com respostas reais. Uma frase da IA convence mais do que um gráfico: "bonita, porém cara" diz mais à diretoria da Lumora do que "61% de tom positivo".
  • Como pensamos. A frase de posicionamento do capítulo 2 e os temas prioritários, com o porquê da escolha.
  • Como vamos medir. Os três níveis da próxima seção, as metas e o calendário.
  • O que precisamos de cada time. O mapa, com o pedido de cada um e o que cada time ganha com ele.

Não prometa receita logo de saída. Prometa o que dá para entregar: saber, todo mês, como a marca aparece; corrigir os fatos errados; subir nos temas escolhidos. A receita vem como confirmação.

Medir em três níveis

Um programa sem medida vira opinião. Com uma medida só, vira briga em torno de um número. O que funciona é acompanhar três níveis:

  • Presença nas IAs. Se a marca aparece nas perguntas que importam, em que posição, ao lado de quem, tema por tema e plataforma por plataforma. Aqui entram também o tom (os elogios e as ressalvas) e a precisão (se os fatos da lista do capítulo 2 estão certos). Aparecer mais com a ressalva de sempre, ou com o preço errado, não é melhorar.
  • Visitas. Quantas pessoas chegam ao site vindas das IAs (o tráfego de referência do capítulo 5), em quais páginas entram, e se as buscas pelo nome da marca e o tráfego direto se mexem junto. As visitas dos robôs das IAs mostram se as páginas novas estão sendo lidas.
  • Negócio. Contatos, pedidos e vendas em que a IA teve participação. É o nível que a diretoria quer ver e o mais difícil de medir, porque a influência da IA raramente deixa rastro limpo.
Painel do Agent Analytics da Bases: 186 visitas de robôs de IA que buscam para responder, 429 de robôs de treino, 85 visitas humanas vindas das IAs, 2,9% do total, e a linha diária das visitas.
Figura 1. O nível das visitas: os robôs de IA que leram o site da Lumora numa semana (o que a tela chama de citações de IA são as visitas dos robôs que buscam na hora de responder) e as pessoas que chegaram vindas das IAs. Tela da Bases com dados simulados.

Nenhum dos três basta sozinho. Presença sem visitas pode ser presença em perguntas que ninguém faz. Visitas que sobem sem a presença subir merecem desconfiança: pode ser só a plataforma mostrando os links de outro jeito. Lidos juntos, os três contam uma história coerente.

A presença chega primeiro

Quando uma ação dá certo, as respostas das IAs costumam ser as primeiras a mudar; visitas, buscas pela marca e vendas vêm depois, cada uma no seu tempo. Cada passo leva tempo e sofre a influência de coisas fora do seu controle, como a época do ano e o que o concorrente fez naquele mês.

Por isso a presença é o número que guia o trabalho do dia a dia: é o mais próximo do que o time faz e o primeiro a mostrar se uma ação funcionou. Visitas e negócio confirmam, ao longo dos meses, que a presença está virando resultado.

Painel de visibilidade da Bases nos 90 dias depois do diagnóstico: a linha da Lumora sai de cerca de 46% em outubro e chega a 52,5% em janeiro, ainda em 2º lugar, atrás da Nórdica.
Figura 2. A presença nos três meses seguintes ao diagnóstico: a Lumora sai dos 46% e chega a 52,5% das respostas, ainda atrás da Nórdica. É o primeiro número a mostrar que o trabalho está andando. Tela da Bases com dados simulados.

Perguntar como o cliente chegou

A forma mais simples de ligar a IA ao negócio é perguntar:

  • No formulário, no cadastro ou no fim da compra, inclua "uma IA (ChatGPT, Gemini, outra)" entre as opções de "como você nos conheceu?", com um campo aberto ao lado. A opção mostra a tendência; o campo aberto mostra o que a pessoa perguntou.
  • Nas conversas de vendas e no WhatsApp, faça a mesma pergunta no primeiro contato e anote a resposta junto dos dados do cliente, com os cuidados de LGPD de sempre. "O ChatGPT disse que vocês eram os melhores para sala pequena" revela o tema, a plataforma e o argumento que funcionou.

Leia essas respostas como tendência, não como conta exata. Muita gente não lembra onde ouviu falar da marca, e quem leu a resposta da IA no alto do Google pode responder só "Google". A Lumora, que também vende no Mercado Livre, só consegue perguntar no próprio site e no WhatsApp. O retrato é parcial, mas mostra a direção.

Metas do canal, não de campanha

As metas do canal dizem como a marca está nas IAs e são acompanhadas o tempo todo: presença nos temas prioritários, posição diante dos concorrentes, tom e precisão. Para a Lumora: passar a aparecer em Custo-benefício, chegar ao primeiro lugar em Leitura, nenhuma IA repetindo o preço antigo da Lumora Pro.

As metas de campanha dizem se uma ação funcionou. A página sobre home office passou a ser citada? O comparativo atualizou o preço? São metas com prazo, ligadas ao que a ação pode mexer.

Dois erros são comuns. O primeiro é ancorar a meta no tráfego que vem das IAs (veja o quadro). O segundo é cobrar receita de uma campanha isolada. Uma reclamação bem respondida ajuda em muitas perguntas, em várias plataformas, por meses; isolar a receita dela só produz um número inventado. Julgue cada ação pelo que ela deveria mexer, e o programa inteiro pelo negócio, trimestre a trimestre.

Registrar o que foi feito

As respostas das IAs mudam por muitos motivos. Quando o número da marca se mexe, a primeira pergunta da diretoria é "por quê?". Sem registro, ninguém sabe responder.

O registro é uma lista simples, uma linha por ação: a data; o que foi feito (a página publicada, o anúncio corrigido, o pedido enviado a um site de fora); quem fez ou a quem foi pedido; o tema ou o fato que a ação deveria mexer; e em qual pergunta conferir.

Anote também o que acontece lá fora: o lançamento de um concorrente, o Dia das Mães ou o Natal, uma mudança visível numa plataforma. Esses eventos explicam variações que, sem eles, pareceriam fruto do seu trabalho. De quebra, o registro mostra os pedidos parados.

Cada time ganha com a própria meta

Nenhum time troca as próprias prioridades por um pedido de fora. O jeito de fazer o AEO andar é mostrar que o pedido ajuda a bater uma meta que o time já tem:

  • Atendimento é cobrado pela reputação no Reclame Aqui. Responder às reclamações antigas melhora a reputação e tira a ressalva das respostas da IA.
  • E-commerce quer vender mais no Mercado Livre. Um anúncio completo tira dúvidas antes da compra, e o Mercado Livre é a segunda fonte que as IAs mais citam quando se pergunta sobre luminárias.
  • Comunicação quer sair nos lugares certos. Saber quais sites as IAs citam mostra onde uma matéria vale mais.
  • Produto quer menos devoluções. Fatos certos nas respostas, como o tamanho de ambiente de cada modelo, evitam a compra errada.

E o crédito vai para o time. Quando o tom sobre o frete melhora depois das respostas no Reclame Aqui, quem aparece no relatório é o atendimento, não o coordenador. É o que faz o time aceitar o próximo pedido.

O ritmo do programa

Falta o que segura tudo: o calendário. Sem ele, o programa vive de sustos, com muita atenção depois de uma resposta ruim e nenhuma no mês seguinte. Com ele, cada número é olhado quando faz sentido, por quem precisa. A proposta tem quatro ritmos, e cada intervalo tem um motivo.

Todo dia: a coleta, sem decisões

As perguntas são feitas a todas as IAs todos os dias, e as respostas ficam guardadas. O motivo é de medida, não de gestão: a mesma pergunta, feita duas vezes, pode trazer respostas diferentes, e só a soma de muitas leituras separa a tendência do acaso (capítulo 3). Quanto mais leituras, mais cedo dá para confiar numa mudança.

O dia serve para coletar, não para decidir. Reescrever uma página por causa da queda de um dia é trabalhar contra o acaso. A exceção são os sinais que pedem ação imediata: um fato errado novo, a marca sumindo de um tema inteiro, um concorrente novo, uma ressalva grave que não existia. Combine quem fica de olho neles.

Quem coleta à mão não sustenta o ritmo diário. Nesse caso, uma rodada por semana, no mesmo dia e do mesmo jeito, é o mínimo para formar uma série, e cada conclusão leva mais semanas para firmar.

Toda semana: meia hora nos temas prioritários

Uma vez por semana, o coordenador olha os dois ou três temas no centro do plano, e só eles. A semana junta leituras suficientes para ver se um movimento se sustenta, é o ritmo em que as ações sob controle direto (uma página publicada, um anúncio corrigido) começam a aparecer, e é curta o bastante para pegar um problema antes que ele se firme.

A meia hora segue um roteiro fixo: presença e posição em cada tema prioritário, contra a semana anterior e contra o ponto de partida; quem dividiu a resposta, e se apareceu alguém novo; a lista de fatos; as fontes citadas; e o registro, para ver se alguma ação já deveria estar aparecendo. Termina com uma nota de três linhas para os times: o que mudou, o que está sendo feito, o que precisamos de cada time. A nota mantém o assunto vivo sem pedir mais uma reunião.

Todo mês: a revisão com os times

Uma vez por mês, uma hora com os donos das fontes. É o encontro em que o programa deixa de ser do coordenador e passa a ser da empresa.

O mês é o tempo do trabalho fora do site. Uma resposta no Reclame Aqui, uma matéria, um anúncio refeito precisam ser lidos pelas IAs antes de aparecer nas respostas, e isso costuma levar semanas. Olhar antes frustra; olhar muito depois deixa os pedidos esfriarem. E é por mês que os outros times planejam e prestam contas: a revisão entra no calendário deles, e não o contrário.

A pauta: como a IA descreve a marca agora, com duas ou três respostas reais; o que foi feito e o que mudou, com o crédito de cada time; os três níveis de medida, porque é no mês que visitas e "como você nos conheceu?" começam a dizer alguma coisa; e os pedidos do mês seguinte, com dono e prazo, mais os parados.

A cada trimestre: o rediagnóstico

A cada três meses, o programa olha tudo de novo, como no capítulo 4: todos os temas, todas as plataformas, os concorrentes, as fontes, o teste de "não sabe ou não confia?". É também quando se revisa a lista de perguntas.

O trimestre equilibra duas necessidades opostas. A lista precisa ficar parada para a série ser comparável: mexer nela todo mês impediria saber se a marca melhorou ou se a régua mudou. Mas o negócio muda: entram produtos, o preço muda, a época do ano muda as perguntas. Três meses dão tempo para uma tendência aparecer e são pouco para a lista envelhecer.

O rediagnóstico revisa as perguntas (sai o que não mede nada, entra o que o negócio passou a precisar, a maior parte fica), as prioridades, os fatos, a frase de posicionamento e as metas. O resultado vira a conversa com a liderança, nas mesmas quatro partes.

Fora do calendário

Algumas situações não esperam a próxima revisão. Uma mudança de fato (preço, garantia, frete, um modelo que sai de linha) pede, no mesmo dia, a lista de fatos, o site e os anúncios atualizados e um aviso aos sites de fora que publicam o dado; nas semanas seguintes, a pergunta desse fato é acompanhada todos os dias. Um lançamento pede as perguntas novas antes, para ter o ponto de partida. Uma crise pede um olhar diário nas perguntas de opinião até a situação assentar.

O ritmo não precisa nascer completo. Uma empresa pequena pode começar pela coleta diária e pela meia hora semanal, e acrescentar a revisão mensal quando houver o que pedir aos outros times. O que não pode faltar é a regularidade. É o mesmo ciclo do capítulo 1, definir, medir, agir e medir de novo, agora com dono, data e pauta.

Comece a medir a sua marca nas IAs

Veja onde ela aparece, ao lado de quem e com que tom, nas respostas de cada IA.